poema sem rima

poema ébrio

noite fria
lenha posta na salamandra
na escuridão tudo eram fagulhas
e as estrelas que no alto cintilavam
queriam me dizer alguma coisa
porque, um dia, um poeta falou
que se escrevia nas estrelas
o mundano destino
e isso ninguém haveria de contestar

acreditei admirada
nos escritos fortuitos
mais por birra
do que por inteligência
e indaguei aos céus
ora, rireis, não crês no que escrevem as estrelas?
sábias velhas caducas estelares
de tantos anos-luz sonharem
com a decadência cósmica
reconhecem mais a nós do que nós mesmos
profundamente mais do que nossa singela sapiência
sequer ousará saber

desígnio meu
és tu com o que sempre sonhei
não tive receio de acreditar
tampouco de ir ao centro do universo
te buscar
e quando de lá voltei
com as mãos cheias
os braços carregados
o coração apinhado
de um amor
brutal
e terno
terreno
e divino
refiz meu caminho
com novas amarras
não mais com efemeridades
mas com a paciência de quem aprendeu
a ler o que foi escrito pelas estrelas.

 

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histórias reais

história de pescador

Faz 30 anos que carrego essa história comigo, como uma sombra que me persegue. A lembrança que eu tinha aqueles dias de pesca na infância era de existir uma grande conexão entre eu, meu pai e meu avô. Eu queria pertencer àquele clube e compartilhar da camaradagem, queria ser grande como eles e prolongar aqueles momentos por anos e anos.

***

No silêncio das seis da manhã, ouvia-se apenas o quebrar das ondas na areia. O sol espreguiçava seus primeiros raios em forma de braços de luz. Uma onda mais alta levantou e, antes de estourar, avistei um peixe flutuando dentro dela, na transparência desvelada pela luz amarela que subia lá longe no horizonte. É que no Sul, explicou meu avô, o Sol nasce no mar. Concluí que aquele seria meu instante preferido: bem cedo da manhã, enquanto todos dormiam suas preguiças e o sol ainda não havia explodido em dia. Sozinha, consegui cavar meia dúzia de uns mariscos dos bons sob a areia ainda fria da noite, quantidade que já servia para alguns arremessos da linha. Os mariscos deixam rastros, uns buraquinhos na areia, então é só cavar com teus dedos, explicou meu pai na primeira pescaria.

Era um dia de férias da escola, em janeiro, eu devia ter uns 9 anos. O assunto da pescaria começou por insistência minha depois de flagrar meu pai e meu avô saindo de fininho muito antes de o sol nascer. Fiquei mortalmente curiosa, queria saber todos os por quês: por que era tão cedo, por que só os dois, por que usavam caniço e não uma rede. Então um dia me atrevi a perguntar se podia ir junto, eles riram. Tu é muito pequena, é frio, é muito cedo. Achei um desaforo que eu não pudesse ir junto, aqueles argumentos eram muito fajutos. Então disse que ia mesmo assim, conseguiria acordar tão cedo quanto eles, vestiria um agasalho e não incomodaria. Sem relutar muito, acabaram topando.

No dia combinado, acordei cedo, e em silêncio, bebi um copo de leite e saí mastigando uns biscoitos a caminho da beira da praia. As primeiras regras começaram a ser dadas antes de pisar na areia: não podia ter cheiro de comida na mão, nem cheiro de protetor solar – iam cedo para não precisar usar o creme. Senão estraga a isca, disseram. Segunda regra: cada pescador pega a sua isca. São os bichinhos miúdos: tatuíras e principalmente os mariscos, não pensa que isso aqui é desenho animado com barquinho e minhoquinha. Tem dois tipos de mariscos, meu pai ia mostrando. Um deles, bem pequeninho, não servia. – Olha, esse aqui é o que serve pra fazer de isca, tá vendo a casquinha fina dele? Segura firme com a ponta dos dedos indicador e polegar das duas mãos, pressiona e torce os dedos pra quebrar a casca. Impressionada, ia aceitando o que me diziam, fazendo conforme as instruções eram dadas.

Na terceira tentativa, consegui abrir o marisco, que era cirurgicamente cortado com uma faca velha da cozinha da minha vó. Tiramos as tripinhas (ou algo semelhante), reservando como isca apenas o pequeno músculo amarelado, que chamávamos de “língua”. Os mariscos grandes rendiam umas três iscas nos anzóis. Os menores, às vezes nem duas.

Naquele dia aprendi a colocar a isca no anzol, que é uma arma traiçoeira, porque tem aquele ganchinho virado para não deixar o peixe escapar. Era a parte que mais me deixava aflita, morria de medo de enganchar meus dedos no anzol e não conseguir pescar.

O medo do anzol era só um grão de areia perto da diversão que era aquilo. A minha excitação era enorme e, por causa disso, nem dei bola pro fato de que não havia caniço para mim. Meu pai me entregou meu equipamento, uma gambiarra nada sofisticada: vários metros de linha de náilon enrolada em uma garrafa de vidro vazia de Pepsi 290 ml. Na ponta da linha, estavam presos três anzóis munidos com as iscas, a chumbadinha e a coragem de jogar aquilo no mar. Sabia que não tinha força pra fazer o lançamento e nem tinha tamanho para entrar na água na distância necessária. Então meu pai entrou e, com a água na cintura, lançou a linha. A mão esquerda segurava a garrafinha, e a mão direita conduzia o giro espetacular daquela chumbadinha, que rodava acima da cabeça dele, o braço erguido lá no alto. Depois de cinco giros, vi minhas iscas sumindo mar adentro. Ele saiu da água soltando a linha aos poucos e me entregou a garrafa. Uma fisgada rápida seria o passaporte carimbado para entrar no clube.

Então segurei a linha por longos minutos. Intermináveis minutos. Os dedos mantinham-se firmes, eu respirava em silêncio e quase conseguia ver o que se passava dentro d’água através daquela linha, tão concentrada que estava. Uns metros distante de mim, meu pai ajudava meu avô a colocar as iscas nos anzóis dos outros caniços, que eram longos e portavam as carretilhas que traziam as linhas de volta. Eles riam baixinho, conversavam as coisas de homens adultos. De repente, uma fisgada na minha linha me trouxe de volta daquele transe. Paralisei de vez. Numa ponta da linha, estava eu, parada em pé na areia, olhando fixo com olhos de peixe para o mar. Na outra ponta, devia ter um peixe com olhos desesperados, buscando uma saída.

Puxei um pouco a linha e aguardei, fazendo exatamente como meu pai havia dito. Novas fisgadas, dessa vez ainda mais fortes. Não tive dúvida, algo prendera no anzol. Comecei a enrolar rapidamente a linha na garrafinha, mas a falta de prática me atrapalhou e a linha começou a se soltar da garrafa, virando um imenso emaranhado na areia. Meu Deus, não podia perder meu peixe. Então decidi largar a garrafa no chão e comecei a puxar a linha para fora da água, correndo para trás até quase a areia acabar. Finalmente, a angústia teve fim. Um brilho saltitante saía da água, e eu lá longe, envergonhada por toda aquela linha solta na areia. Apertei os olhos tentando descobrir se era peixe mesmo ou só a chumbada que me iludia. Quando minha suposta presa estava a salvo na areia, pude correr para ver o que era. Minha total surpresa quando cheguei perto e percebi que havia, além da chumbada, um peixe em cada um dos três anzóis, estavam bem presos. Eram três papa-terras prateados, saltando descontroladamente na areia. Consegui, pensei. Tinha entrado para o clube.

***

A minha participação no ritual deles durou não mais do que dois verões, e sempre por insistência minha. Eles continuaram saindo de fininho, e só consegui me infiltrar umas poucas vezes mais. Trazer os peixes pra fora da água, mantendo a linha no eixo (cheguei a ter meu próprio caniço), era o que mais importava pra mim. Queria me tornar uma pescadora melhor a cada ida. Para o meu pai e o meu avô, aquilo não tinha o mesmo sentido, porque a verdade é que eu mais atrapalhava do que ajudava. A pesca, em si, era só um pretexto para saírem de casa e fugirem das vistas das mulheres e das crianças, para poderem ter suas conversas de homens adultos. Mas era impossível entender essa sutileza naquela época, então me senti frustrada durante muito tempo, tentando entender por que não pescavam mais, mesmo com a minha insistência a cada verão. Eles cansaram, provavelmente. Talvez até tenham cansado um do outro. O fato é que o clube nunca existiu, a não ser na minha cabeça.

 

poema sem rima

sepia

Depois de muito chão
encostei minha garrucha
à porta do galpão
onde morava uma sábia bruxa
a quem pedi uma poção
encomendada com cuidado
para acabar com a solidão
que em meu peito fez morada
e andava a corroer a minha alma
deixando-me desajuizada
a penar pelas estradas
desde o meu longe rincão.

Bebe-o em um só gole, disse-me ela,
entrega tua crença nesse elixir
que irá te conduzir
por caminho mais leve e sereno
de modo algum pequeno
e arrancar do teu seio esse enorme vazio
onde jaz tua existência…

Dentro de ti há um vasto mundo,
tão profundo e escuro quanto as noites sem lua,
onde reside a tua essência…

Sorve sem demora o líquido precioso,
irás retornar ao que já foste,
reencontrar o que se pode ser,
conta então quatro luas de escuridão,
que a noite se fará luz.

 

poema sem rima

humana

eu sou o que restou de mim mesma
quando tudo mais desabou
por terras, por ares, por águas
só então pude ser
inteiramente humana
abracei meus defeitos
acolhi as dores
abriguei alguns amores
encolhi os caprichos
debrucei-me para dentro de mim
mais de uma vez
sou eu novamente
um ciclo espiralado sem fim

 

Crônica

cesárea

Saí frustrada do consultório da obstetra naquela tarde. Com quase 40 semanas de gestação, voltei pra casa chorando, decepcionada comigo mesma e me sentindo incompetente. Depois de tanto preparo, de tantas privações, não conseguiria fazer o sonhado parto natural.

Cerca de 36 semanas antes, a sensação foi oposta: saíra do banheiro com aquele palito plástico urinado e as duas vitoriosas listrinhas que anunciavam: parabéns, sua vida vai mudar pra sempre! Não foi uma surpresa total, pois minha gravidez foi bem planejada e desejada. Mas, obviamente, no segundo seguinte, um pensamento paradoxal passou pela minha cabeça, “meu Deus, não vou dar conta”, e em seguida “meu Deus, vou sim, vai dar tudo certo”.

Depois que uma mulher anuncia a gravidez, há uma certa vigilância sobre ela toda: o mundo tinha conselhos pra me dar. Amigos advertiam sobre o óbvio: “cuidado, grávida não pode beber, cuidado quando for dirigir, cuidado, se dormir pouco vai fazer mal pro bebê”; outros sobre coisas não tão óbvias, como “não pode comer coisas cruas”, ou coisas muito salgadas, ou coisas muito doces, e também coisas apimentadas. Ah! Cuida pra não ficar muito tempo em pé. Viu? Cuida da pele, vão aparecer muitas manchas. Minha querida, cuida com esse tipo de produto, tem um ingrediente tóxico que passa pela placenta. Coitada da grávida que tiver dor de cabeça, não pode tomar remédio. Eu até entrei em todas as ondas de cuidar isso e aquilo, sempre à base de doses diárias de vitaminas naturais, muito suco, frutas, alimentos orgânicos. Nem me dava conta de que não era isso que me faria ganhar o prêmio de mãe do ano (caso existisse).

 Passaram-se algumas semanas. Então, ia começando a experimentar uma nova dimensão, parecia que um portal tinha sido aberto. Existia uma nova terminologia na minha vida e que precisava ser rapidamente dominada. Mamadeira bico 0, bico 1 (mas pra quê isso tudo se eu vou amamentar no peito?), carrinho (são todos iguais!), bebê-conforto (base pra encaixar? Alça com ajuste?), trocador, tipos de berços, altura da cômoda. E aí o nível de detalhe pode aumentar cada vez mais. Eram muitas novidades, e uma corrida contra o tempo. Porque ao contrário de qualquer outro plano, esse era daquele tipo que, uma vez iniciado, não tem volta e não dá pra parar. Um plano que não se aborta, literalmente. Tem um prazo para terminar, era muito real. E tudo tem que dar certo naquele tempo.

As calças não fechavam mais, ao mesmo tempo em que se abria um mundo novo. A barriga despontava como uma lua redonda, e o mundo reconhecia, “é grávida, deixa ela passar”. A barriga positiva era um orgulho. Era prioridade sempre, em todos os lugares. A gravidez era um lugar de privilégio. Eu tinha dois corações dentro de mim, batendo juntos e descompassados. Sentia que era a mais poderosas das mamíferas, estava vivendo a plenitude de ser mulher. Senti a Olívia mexer pela primeira vez. A segunda. A terceira. Já estávamos íntimas. Minha melhor amiga, minha filha, minha primeira pessoa. Foram meses de uma experiência incrível. O ventre crescendo, quanto orgulho de mim mesma, estava fazendo um belo trabalho, me nutrindo direitinho, sem inchaços, sem complicações. Adorava fazer os exames, minha nota era sempre 10 com estrelinha em tudo. E assim, pela mesma via placentária, nutria a Olívia e a expectativa de vê-la nascer por um parto natural. Alimentei a expectativa de que este fato, por si só, fosse responsável para que tudo saísse de modo perfeito.

Minha médica me orientou a fazer um pouco de fisioterapia para ajudar na hora do parto. Lá fui eu correndo me matricular nas aulas de hidroginástica para gestantes, com exercícios de respiração, bola de pilates e a fisioterapia a cada 15 dias. Eu era uma linda barriga. Nada mais. O mundo era o meu umbigo. E eu não via a hora de sentir contrações. Li um sem-número de vezes aquelas páginas sobre o trabalho de parto do “O que esperar quando se está esperando”. Eu esperava, esperava, esperava.

No consultório, na última consulta antes do nascimento, queria apenas ter ouvido a médica me confirmar que ia dar certo o meu plano de parto natural e que já estava com alguma dilatação. No entanto, o que ouvi foi que “a cesárea estava sendo agendada pro dia 29”. E depois de esperar 39 semanas, me dedicando a conhecer tudo o que era possível saber sobre gestação, me preparar como mandava o manual, senti um vazio. Um vazio tão grande, tão gigante, que senti medo e chorei, porque não conseguia entender o que havia de errado. Como podia sentir um vazio se eu estava plena, preenchida? O medo de estar perdendo o controle sobre mim me apavorou. E não tinha mais o que fazer. A Olívia era uma bebê grande e não passaria pela via natural. Simples assim.

O que acabou acontecendo não foi nada do que eu tinha planejado. Nem parto natural, tampouco a cesárea no dia 29. Eu morava em São Paulo na época, na região metropolitana, era um pouco longe da maternidade. Era terça-feira, dia 28. Liguei para o trabalho do Pedro, pai da Olívia e na época meu esposo, pedi para ele sair mais cedo do trabalho e nos levar até o hospital para verificar se estava tudo bem, porque estava me sentindo meio estranha, não sabia nem descrever. Chegando lá após mais de uma hora e meia de trânsito, fui encaminhada para a sala da triagem, esperamos quase uma hora. Na triagem, o exame de toque foi a pior dor da minha vida, dali saí direto para a sala de cirurgia. Explicaram que tive uma ruptura alta na bolsa (por isso não perdi líquido, e provavelmente o motivo de me sentir estranha) e o mecônio estava começando a ser expelido. Acabou sendo parto emergencial. Às 20h57, conheci a Olívia, chorando e perfeita. Agradeci pela cesárea e pela ausência de dores e sofrimento desnessário.

Depois disso, refleti sobre o que se passou, sobre as expectativas que eu tive, as minhas crenças e o comportamento quase neurótico que desenvolvi, na busca de uma perfeição que não existe. Por uma teimosia, podia ter colocado as nossas vidas em risco. Agradeci mais de uma vez por ter escutado meu instinto, foi o que me levou pro hospital na hora certa. Mas também aprendi a me permitir errar e entendi que o que nos torna mais ou menos mãe não é um parto natural ou uma cicatriz na barriga. Aprendi que as coisas e as pessoas têm seu tempo e que a via natural é apenas um dos caminhos que leva uma mulher à maternidade de fato. 

Drop

drop da saudade

Um dia encontrei uma menina
que sabia atravessar a saudade
porque havia outra alma
saudosa
(era a minha)

viram-se ambas naquele devaneio cósmico
a menina disse
te vi ontem
– só eu te vi, ninguém mais te via –
porque tinha saudades de ti
tu não dizias nada, mas eras tu
e de tanta saudade,
as alminhas conseguiram se ver
num lugar que só a física quântica saberia descrever.

Quem vê o invisível
não é mágico, nem louco,
mas quem tem o coração puro,
porque consegue ver com a alma.